10 de março de 2021.

[trecho das páginas matinais]

“… Não queria escrever nem dizer isso, nem dar qualquer existência material a esse pensamento que eu abomino, mas ele existe e eu não sei o que fazer com ele. (…) Nesse momento, vai ser largar a caneta e deitar. E dormir. E esconder tudo isso em algum lugar. E deixar lá. Fingir que não existe, enquanto ele me corrói sem piedade.

Queria terceirizar minhas dores. Não estou apta ao cargo”.

04 de maio de 2021.

[trecho das páginas matinais]

Essa noite sonhei que fugia de uma prisão pelo mar. Estávamos eu e outras mulheres, que às vezes era uma, às vezes outra, mas era sempre eu quem guiava e tomava os atalhos.

Tinha um buraco em uma tela (daquelas de proteção/prisão?) e dava para o mar aberto. Eu pulava. Ensinei uma delas a pular também. Depois nadava, boiava, e por fim, chegava na terra. Aí era só mato. Não sei o fim dessa jornada. O sonho acabou.

Precisava listar rapidamente os medos e receios que tinha em relação ao trabalho. Era um desses exercícios de autoajuda que resultam mais difíceis de alcançar do que a própria cura a que supostamente conduzem.

Mas o medo é sentimento maroto. Consegue se camuflar facilmente e é ótimo de fachadas e…

Enquanto uma amiga se revirava de dor no ventre, prontamente me levantei, pus água para ferver na cozinha e separei algumas folhas que fui encontrando. A prontidão com que conduzi a sequência de atos me fez recostar por uns segundos na parede ao lado do fogo, enquanto a água não…

Estas terras onde nasceste, Maria Quitéria, é território sagrado.

Que meus pés pisem teu chão e minha alma encontre tua força.

Às vezes preciso chorar pra não morrer por dentro.

Às vezes choro e escrevo ao mesmo tempo.

Tiradas nas folhas de um caderno, encontrei linhas de desabafo. Leio como consolo auto investido, um afago que deixei a mim como aqueles que ofereço aos outros quando testemunho suas dores. Sou ótima…

formas amáveis de começar o dia

Adiar tudo e deixar o depois pra depois porque

o que interessa é agora.

Depois enquanto sobe a rua, passa o sinal, perda a placa, ouve a rádio, sente a noite com o sol pelando. Dilato.

Deixo tudo pra depois e com fome de momento,

porque a vida não é destino, é caminho.

ramo de primavera na mesa da cozinha

Tento com vigor evitar clichês sobre dores e angústias em um ano de tragédia universalmente compartilhada e tragédias secretamente vividas. Talvez porque ainda não encontrei maneiras lexicalmente palpáveis de fazê-lo — e talvez nunca encontre.

Em minha busca por uma identidade na escrita, os clichês costumavam ser como perversos demônios…

Letícia Moreira

em algum lugar, a qualquer momento, a gente se encontra, só pra se perder de novo. Mestranda em Cinema. Insta: @lettiemoreira e @maisquesetimarte

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